Reflexões, como o sol reflete no horizonte.
Tenho outro livro aqui em minhas mãos, de Sardar Gurudayal Singh, ou simplesmente Sardarji. Ganhei esse livro de uma amiga que esteve nos anos 80 na India.
Sardarji, como carinhosamente era conhecido Sardar, era um dos discípulos favoritos do mestre indiano Osho. Sardarji era um indiano gordão, super bem humorado, com uma risada enorme: de volume e prazer… a risada do cara era contagiante.
Durante suas palestras, Osho costuma contar piadas, ou estórias engraçadas, e lá estava Sardarji, com aquela risada que dava para ouvir a um quarteirão de distância. A risada de Sardarji tinha pequenos subprodutos, que eram pequenos risos que se seguiam até ele se acabar de tanto rir. E o auditório às vezes era como um mar de risada, ecoando as ondas de gargalhada de Sardarji, o indiano gordo.
Além de risonho, Sardarji era uma criança aprontona, sempre disposto a desafiar as regras e a rigidez dos alemães que cuidavam de todo o funcionamento da comunidade ao redor do mestre indiano. Obviamente tinham que ser alemães, porque eles realmente eram organizados e eficientes, … mas rígidos. E Sardarji vivia aprontando, roubava vinho da dispensa do restaurante da comuna, transava debaixo de sua túnica enorme durante o discurso de Osho, coisas do gênero. Tudo isso eu ouvi falar, nunca presenciei, porque as pessoas falavam muito de Sardarji. Ele sempre dava o que falar, ou de rir…
Uma vez encontrei Sardarji em uma situação cômica: ele trabalhava de guarda na comuna e eu estava violando uma regra. As regras dos alemães !!! Não sei se eram alemães que a criaram, mas a regra com certeza era alemã.
Todo ano, no dia 11 de dezembro, aniversário de Osho, como parte das comemorações, tinha um concerto com um amigo do mestre, um flautista maravilhoso, chamado Hari Prasad Chaurasia. Hari Prasad toca flautas de bambu, de uma maneira magistral, faz voar como um pégaso, que voa e pousa, e dança ao som da tabla.
Todo 11 de dezembro, durante dois anos, eu sentava lá e ouvia Hari Prasad por duas horas seguidas, de olhos fechados, imóvel, sem mexer um músculo. Colocava minha cadeira de meditação sempre no mesmo lugar: colada a um palquinho de mármore, local onde ficava a cadeira de onde Osho proferia suas palestras diárias ao seu auditório.
Pois bem, no terceiro 11 de dezembro que eu estava lá, Osho já tinha evaporado, deixando o local impregnado daquela atmosfera de meditação. E Hari Prasad, mesmo sem a presença do amigo, foi fazer seu concerto. E eu, seguindo meu ritual, fui ao meu encontro com o pégaso, o cavalo animado pela flauta mágica do indiano Hari.
Cumprindo o roteiro, coloquei a cadeira no local de sempre. Um fato curioso, porém, chamara minha atenção: havia um cordão de isolamento ao redor do palquinho (chamado de “podium”). Eu pensei: regra alemã! E pulei a corda e pus minha cadeira como de costume.
Fechei meus olhos, quando suavemente alguém tocou no meu ombro: “ei swamiji”, disse aquela voz conhecida. Era o indiano gordo.
Ele continuou: “você não pode ficar aí!”
Eu perguntei: “por quê?”.
Ele respondeu: “regras”.
Eu questionei o porquê daquela regra estúpida, pois sequer o mestre, com sua saúde frágil estava mais lá, o que poderia justificar um isolamento do palco. E acrescentei: “todo ano, eu sento aqui. Agora que Osho não estará aqui, não vou poder mais? Esta regra é estúpida!”.
Foi quando Sadarji me olhou e respondeu: “você está certo, pode ficar aí”. E eu fiquei.
Esse era Sardarji e acho que por isso Osho gostava tanto dele, pela rebeldia inteligente, pela maneira de responder a uma situação de modo vivo, sem se apegar cegamente a um mandamento, só porque alguém disse que era assim.
Lembrei de outro encontro com Sardarji, mas fica para a próxima inserção do BlogDoBiru. Valeu pela companhia.
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